
L U Z N E G R A
Pedro Alexandre Sanches, julho de 2008
Em 2007, Fernanda Takai atirou-se ao vitorioso projeto de recolocar em foco a obra e a natureza artística imprevisível de dona Nara Leão (1942-1989). Resultou numa homenagem rebelde e iconoclasta (é o modo mais inteligente de homenagear) e no CD Onde Brilhem os Olhos Seus, que por sua vez resulta agora no DVD e CD ao vivo Luz Negra (Deckdisc). Ora, mas você já sabe de tudo isso há tempos. Foquemos no imprevisível, com a bênção de mãe Leão.
Por exemplo, do laser imaterial do DVD brotam imagens de apuro estético digno do currículo de Fernanda e seu Pato Fu. Sob a orientação da autora e a influência de filmes como O Homem-Elefante (1980), de David Lynch, e Sin City (2005), de Frank Miller e Robert Rodriguez, a equipe da produtora mineira G5 foi além da gravação burocrática de um show e criou um habilidoso jogo de cores e sombras, claros e escuros, naras e leões – com as bênçãos de pai Bertolt Brecht.
A parte musical é conduzida com Lulu Camargo (arranjos e teclados), Mariá Portugal (bateria e percussão), Thiago Braga (baixo e violão) e o marido e colega de banda John Ulhoa (arranjos, guitarra e violão), e aqui se produz uma série de pequenas grandes surpresas. Fernanda reverencia Nara, mas sem deixar jamais de demarcar que Fernanda é Fernanda e que Fernanda não é Nara (daí minha afirmação anterior sobre a iconoclastia, a rebeldia e a inteligência do tributo). O palco é o lugar ideal para materializar essa distinção.
E Fernanda se distingue entrelaçando Nara a outras memórias afetivas, num bordado que a homenageada jamais imaginaria, mas aprovaria com entusiasmo (ou não seria quem foi). Metabolizada pelos afetos da discípula, a força MPB de Nara se ajusta à força pop de entidades como os Eurythmics de Annie Lennox (There Must Be an Angel, 1985), Duran Duran (Ordinary World, 1993), o ídolo pré-iê-iê-iê Demetrius (O Ritmo da Chuva, 1964) e… Michael Jackson. Nosso adorado pobre menino rico nem havia morrido quando Fernanda inseriu no mundo de Nara esta doce versão de Ben (1972), tema cantado por um garoto de 14 anos e dirigido a um ratinho triste e abandonado (haveria imagem mais condizente com a de Michael no ano de sua morte?).
Ah, lembro-me de Roberto Carlos, de quem Fernanda tentou relançar O Divã (1972), regravada por Nara em 1978. Já que não pôde (por que? pergunte ao nosso “Rei”…), decidiu adicionar outra do mesmo disco de RC, a tristonha e abandonada Você Já Me Esqueceu. Nada a ver? Tudo a ver, que a “carioca” Nara, como Roberto, era capixaba.
Do ciclo de referências entrecruzadas participa ainda Kobune, versão em japonês de O Barquinho – Nara era querida no Japão, Fernanda é mestiça de japoneses, Fernanda e o Pato Fu são queridos no Japão, pois então. O novelo de afinidades se desata em Sinhá Pureza, sucesso em 1974 com a subestimada Eliana Pittman. Dona Eliana é carioca, mas Sinhá Pureza é um fulgurante carimbó paraense, que remete às raízes amazônicas de Takai (embora “mineira”, ela nasceu no Amapá) – todo dia era dia de índio!
E aqui eu agradeço a Fernanda: por causa deste show, fui reouvir sinhá Eliana Pittman e conferi que o autor de Sinhá Pureza era um paraense arretado chamado Pinduca. (Re)descobri em casa um antigo CDzinho-coletânea de sinhô Pinduca, e desde então me apaixonei perdidamente pela obra originalíssima desse desconcertante jazzista festeiro índio japonês amazônico brasileiro Michael negro Jackson Nara pureza branqueza Leão. E não sou eu só: nossa adorada música brasileira já deve mais essa a dona Fernanda Takai.
ONDE BRILHEM OS OLHOS SEUS
Nelson Motta, outubro de 2007
Adolescente no Rio de Janeiro, a primeira vez que vi e ouvi Nara Leão me apaixonei. Era um show de bossa nova – a nova moda recém-inventada por João Gilberto. Bossa nova não era só uma música, era um estado de espírito, dizia Ronaldo Bôscoli, apresentador do show e namorado de Nara. Ele sabia do que falava: ela era a encarnação da nova estética da bossa nova, com sua voz pequena e sua grande timidez, uma garota moderna de Copacabana com ares europeus e um look meio oriental, livre e independente, muito diferente de todas garotas que eu conhecia.
Dali em diante virei seu fã e, pouco depois e até o final, também seu amigo e parceiro de aventuras musicais. Acompanhei de perto a sua trajetória única na música brasileira, primeiro como musa da bossa nova, depois como fundadora da MPB e voz da oposição à ditadura, Nara doce guerreira, tropicalista de primeira hora, revelando talentos, quebrando preconceitos, renovando o samba e o chôro, a bossa nova e a MPB, Nara eternamente moderna, a voz mais inteligente do Brasil. Além disso, como raras artistas de seu tempo, Nara conduziu sua vida e sua carreira com liberdade, integridade e independência e sempre fez o que queria, como queria e quando seu coração de leão mandava.
40 anos depois, ouvi o Pato Fu e Fernanda Takai, vi seus clipes. Adorei. Minha primeira impressão foi um alto elogio: puxa, essa garota é a Nara Leão do pop rock. O oposto da exuberância e vulgaridade das estrelas pop, Fernanda era discreta e original, cool e elegante, tinha um look meio oriental e cantava letras inteligentes e irônicas com doçura e firmeza, uma garota tão moderna, tímida e talentosa quanto Nara em 1959.
Quando finalmente conheci Fernanda, em 2006, não resisti e sugeri que ela seria a cantora ideal para fazer um grande disco com releituras modernas das músicas que marcaram a carreira de Nara. Para minha surpresa, ela conhecia várias, e gostava muito, o pai tocava os discos de Nara para ela desde criança. Me pediu uma lista de sugestões e disse que faria alguma coisa com John em seu estúdio de casa e me mandaria. E logo veio uma, ótima, depois outra, bonitíssima, diferentona, e mais uma, beleza ! Tudo em mp3 por email, eu respondia com elogios e sugestõezinhas, e quando olhamos, e ouvimos, estávamos com um disco pronto ! E muito lindo, que com certeza Nara ouviria com prazer, alegria e orgulho, um disco que honra a sua memória e a revive e renova. Simples assim, quase sem querer, querendo muito. A cara de Fernanda, a cara de Nara.
O mais interessante desse disco feito em casa e co-produzido à distância é que, por sua geração e formação pop rock, Fernanda e John tinham pouca familiaridade com o universo rítmico do samba, chôro e bossa nova de Nara, o que resultou em leituras surpreendentes e renovadoras de todas as canções, escolhidas entre as mais importantes da carreira de Nara. O pop, o rock, o folk, o jazz, o dixieland, o baião-techno, o soul branco de John e Fernanda ( com o auxílio luxuoso dos teclados polivalentes de Lulu Camargo ) renovam e reinventam grandes canções de mestres como Chico Buarque, Zé Kéti, Roberto e Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Ernesto Nazareth e Nelson Cavaquinho, com beats, loops, grooves, timbres, solos e arranjos do terceiro milênio. A graça e o bom gosto, a elegância e a discrição – além de um look meio oriental – unem a delicadeza e a inteligência da música de Nara e Fernanda.
Em 2007, Fernanda Takai atirou-se ao vitorioso projeto de recolocar em foco a obra e a natureza artística imprevisível de dona Nara Leão (1942-1989). Resultou numa homenagem rebelde e iconoclasta (é o modo mais inteligente de homenagear) e no CD Onde Brilhem os Olhos Seus, que por sua vez resulta agora no DVD e CD ao vivo Luz Negra (Deckdisc). Ora, mas você já sabe de tudo isso há tempos. Foquemos no imprevisível, com a bênção de mãe Leão.
Por exemplo, do laser imaterial do DVD brotam imagens de apuro estético digno do currículo de Fernanda e seu Pato Fu. Sob a orientação da autora e a influência de filmes como O Homem-Elefante (1980), de David Lynch, e Sin City (2005), de Frank Miller e Robert Rodriguez, a equipe da produtora mineira G5 foi além da gravação burocrática de um show e criou um habilidoso jogo de cores e sombras, claros e escuros, naras e leões – com as bênçãos de pai Bertolt Brecht.
A parte musical é conduzida com Lulu Camargo (arranjos e teclados), Mariá Portugal (bateria e percussão), Thiago Braga (baixo e violão) e o marido e colega de banda John Ulhoa (arranjos, guitarra e violão), e aqui se produz uma série de pequenas grandes surpresas. Fernanda reverencia Nara, mas sem deixar jamais de demarcar que Fernanda é Fernanda e que Fernanda não é Nara (daí minha afirmação anterior sobre a iconoclastia, a rebeldia e a inteligência do tributo). O palco é o lugar ideal para materializar essa distinção.
E Fernanda se distingue entrelaçando Nara a outras memórias afetivas, num bordado que a homenageada jamais imaginaria, mas aprovaria com entusiasmo (ou não seria quem foi). Metabolizada pelos afetos da discípula, a força MPB de Nara se ajusta à força pop de entidades como os Eurythmics de Annie Lennox (There Must Be an Angel, 1985), Duran Duran (Ordinary World, 1993), o ídolo pré-iê-iê-iê Demetrius (O Ritmo da Chuva, 1964) e… Michael Jackson. Nosso adorado pobre menino rico nem havia morrido quando Fernanda inseriu no mundo de Nara esta doce versão de Ben (1972), tema cantado por um garoto de 14 anos e dirigido a um ratinho triste e abandonado (haveria imagem mais condizente com a de Michael no ano de sua morte?).
Ah, lembro-me de Roberto Carlos, de quem Fernanda tentou relançar O Divã (1972), regravada por Nara em 1978. Já que não pôde (por que? pergunte ao nosso “Rei”…), decidiu adicionar outra do mesmo disco de RC, a tristonha e abandonada Você Já Me Esqueceu. Nada a ver? Tudo a ver, que a “carioca” Nara, como Roberto, era capixaba.
Do ciclo de referências entrecruzadas participa ainda Kobune, versão em japonês de O Barquinho – Nara era querida no Japão, Fernanda é mestiça de japoneses, Fernanda e o Pato Fu são queridos no Japão, pois então. O novelo de afinidades se desata em Sinhá Pureza, sucesso em 1974 com a subestimada Eliana Pittman. Dona Eliana é carioca, mas Sinhá Pureza é um fulgurante carimbó paraense, que remete às raízes amazônicas de Takai (embora “mineira”, ela nasceu no Amapá) – todo dia era dia de índio!
E aqui eu agradeço a Fernanda: por causa deste show, fui reouvir sinhá Eliana Pittman e conferi que o autor de Sinhá Pureza era um paraense arretado chamado Pinduca. (Re)descobri em casa um antigo CDzinho-coletânea de sinhô Pinduca, e desde então me apaixonei perdidamente pela obra originalíssima desse desconcertante jazzista festeiro índio japonês amazônico brasileiro Michael negro Jackson Nara pureza branqueza Leão. E não sou eu só: nossa adorada música brasileira já deve mais essa a dona Fernanda Takai.
Pedro Alexandre Sanches